Antigo blog Anderson Ribeiro

Há quem, com seus superpoderes, domine ler pensamentos. Destes, há quem os ouça, inclusive. Nestes, costumo provocar ilusão de áudica. Anderson Ribeiro
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janeiro 31, 2010

Panfletário - Entrevista Virtual

CONTAGEM_ JANEIRO/2004

ENTREVISTA VIRTUAL COM ANDERSON RIBEIRO

DA RUA DAS ACÁCIAS o autor de Algozes concedeu entrevista via e-mail ao panfletário cujo QG encontra-se avizinhado à rua Mulungu, no bairro Cidade Jardim Eldorado, localidade que terá um Parque Ecológico à rua das Paineiras, onde reside o poeta das essências Kennedy Cândido. Sem negar as sombras das árvores, o perfume das acácias e o bom café próprio das entrevistas, numa atitude pós-moderna, os vizinhos Vinícius Fernandes Cardoso e Anderson Ribeiro, entrevistador e entrevistado, elegem as vias e desvias da Internet como palco da presente entrevista. Esses meninos...

PANFLETÁRIO – Como se dá seu estado poético?

ANDERSON RIBEIRO - Acho que o indivíduo que lançar mão de uma fórmula poética correrá grande risco de ser impreciso. O estado poético é algo que passa por nós aleatoriamente de acordo com nossa capacidade criativa: estou poeta, antes ser. Já leu um poema de Vinícius que correu calafrios nos ossos? Já se viu, ante uma cena ou, sei lá, uma música, poderoso o suficiente para salvar o mundo? Ou triste o bastante para cometer um poema? Excluindo-se a técnica e/ou a competência literária, o poeta cru é aquele que sente, aquele que vê o belo. O poeta é "Aquele que sabe".

PANFLETÁRIO - O projeto modernista era o de unir arte e vida. Este foi seu projeto em Algozes?

ANDERSON RIBEIRO - Algozes, antes de ter sido um projeto foi um (dos maiores) desafio ao meu “anarquismo interior”. Não a parte física, nem mesmo as letras, mas sim um desafio à atitude. Se tecnicamente medíocre ou extraordinário, se comunicativo ou expressivo, Algozes é um começo, uma iniciativa, um pedido a atentar-me à vida de forma lúdica e explícita. Sem tomar conhecimento da causa modernista, ou pelo menos não tomando-a como base, o resultado compartilha vitórias e me faz sentir muita alegria se assim o for considerado.

PANFLETÁRIO - Quais leituras lhe marcaram? Alegoria da Caverna de Platão?

ANDERSON RIBEIRO - Interessante à comparação. Realmente as metáforas são parte expressiva de Algozes. Talvez por isso tantas falsas (des)conexões. Na verdade inconscientemente não sou direto nos poemas. Notei que para mim é mais prazeroso usar figuras de linguagem e a licença poética para praticar letras. Considero mais lúdico fazer da mensagem um jogo de palavras a ser montado e interpretado por cada um. Além das sombras da caverna (minhas letras) o mundo incomensurável lá fora repleto de novas descobertas (do leitor) pode ser encontrado ou não, dependendo da paixão com que se lê. Tenho na proposta de Sócrates “só sei que nada sei” meu ponto de partida literário, e a vida se transforma em algo sem regras prévias. Sophia me surpreendeu com seu mundo nada surpreendente do ponto de vista cotidiano, mas revelador a quem vive morto. Tom Sawyer é amigo, Dante. Roberto Freire ama e dá vexame assim como eu. Já leu o Cavaleiro das Trevas ou Shaman, contos de Batman? Adoro quadrinhos, e aprendi a gostar de heróis sem poderes sobrenaturais, os superpoderes são inferiores ao poder do querer e da criatividade. Li muito, mas menos do que gostaria de ter lido, e com isso escrevi, na verdade, um quebra-cabeça que pode ser montado de acordo com a “posição” em que o leitor pega o livro como um todo ou um dos textos individualmente.

PANFLETÁRIO - Podemos dizer que sua obra, Algozes, emite uma(s) mensagem(s)? Qual(is)? Qual são os algozes do Homem hodierno?

ANDERSON RIBEIRO - Sim, pelo menos almeja, mas como “todo poeta é um fingidor”, finjo que a dor de escrever um livro não existe e declaro “seus” os meus poemas, dando à criatividade e ao estado momentâneo do leitor o direito de enlevar suas próprias mensagens, de enxergar o que cabe a si naquelas palavras. Hoje, alguns de nossos maiores algozes continuam sendo os mesmos que sempre atormentaram-nos, lembre-se da alegoria da caverna outra vez, quem aprisionava o homem? A resposta é simples: o próprio homem. Cego, escravo, morto. Algozes é para quem questiona e deixa-se questionar, para quem não tem respostas nem opiniões prontas para tudo, para quem é capaz de sugerir melhorias ou outras formas de se fazer. Talvez para quem é capaz de desmanchar tudo e depois, com os pedacinhos, construir algo que lhe encanta mais. Assim, seria cruel e contraditório estabelecer a “minha” mensagem em Algozes, mas talvez seja válido dizer de minha vontade de despertar idéias e atitudes em nós, outros. Cada verso é um grito de liberdade escrito em anderibeirês.

PANFLETÁRIO - Você era morador do bairro Novo Riacho, agora se encontra no Eldorado. Fazendo alusão a trecho de Estação Eldorado: histórias e estórias da gente do contagense Ignácio Agero Hernández - qual a "alma dos bairros" referidos acima?

ANDERSON RIBEIRO - Não tenho barreiras territoriais, não sou nacionalista nem tenho procuração de nada nem de ninguém. Lembro-me de uma palestra do Roberto Freire em que estive presente e ele contou que um dia perguntaram-lhe, dado sua postura anarquista, se mudaria alguma coisa na bandeira nacional e ele respondeu que mudaria um pequeno detalhe, pequenininho: deixaria o verde onde está o verde, o amarelo, o azul e o branco também inalterados, mas ao invés de “Ordem e Progresso" estaria escrito “Sem tesão não há solução”. Essa deveria ser a alma dos moradores dos dois bairros e do mundo. Infelizmente não tive oportunidade de ler o livro citado, mas posso dizer que fiz grandes amigos no Novo Riacho, mantenho-os aqui, no Eldorado, para onde me mudei há pouco e onde pretendo criar muitos mais amigos e poesia. Lá havia a rua Monte Azul e a molecada, aqui o metrô e suas idas e vindas.

PANFLETÁRIO - O que seria uma arte engajada? Você é um patrulheiro ideológico, ou seja, procura nas obras alheias sinais de engajamento ou de alienação?

ANDERSON RIBEIRO - Acho que não, não objetivamente, mas é da nossa natureza sermos críticos. A arte deve causar encantamento. Outra vez não me refiro à parte física, mas à sensibilidade artística do criador no instante da criação. A cada “leitura” de uma peça artística teremos, de acordo com o que temos no coração, uma opinião. Prefiro extrair da arte o que me convém ou pareça “meu”. “O todo é maior que a soma de suas partes”, e a ideologia muda de acordo com os prazeres e tormentos pelos quais passamos. É claro que também tenho minhas ideologias e minhas preferências, mas considero cada possibilidade vinda de fora como uma nova peça de um novo quebra-cabeça, e que tal ajudar a montá-lo? Mas aí você me diz: Algozes não é um engajamento ideológico? Pode ser, mas sem imposições, sem condicionamentos. Apenas vomito “flashs”, vertigens, gostosuras e travessuras, servidas em conjunto ou separadamente como um “Lego”, o que vai querer? O prazer está acima da arte e me engajaria em qualquer iniciativa que fomentasse prazer. Ideologias não devem ser imperativas no processo de criação.

PANFLETÁRIO - Lendo lançamentos tenho percebido que as obras literárias apresentam qualidade no aspecto formal, embora percebo a ausência de obras sintomáticas com relação a nossa época, obras comunicativas. Você confirma?

ANDERSON RIBEIRO - Em que sentido, da sua ou da minha época? Será que somos da mesma época ou da mesma galáxia? Será que temos acesso ao mesmo tipo de leitura? Te pergunto isso, primeiro por não acompanhar muitos lançamentos, infelizmente. Segundo por conta da interpretação. Como eu disse, sempre ergo palavras das palavras que as coisas dizem, as quais derrubo para apanhar outras que me parecem mais encantadoras e pertinentes. Sei que é poético demais, pouco direto. Na verdade não sei se tenho embasamento para responder, mas sei que é muito prazeroso extrair mensagens importantes do que lemos ou contemplamos de alguma forma. É uma pena ver que grande parte do processo de criação atual é mais industrial que espontâneo ou mesmo ideológico, e é aí que projetos ativos como a ACL são extremamente relevantes, pois disponibilizam e incentivam a leitura, o pensar e a criação. Acompanho o belo trabalho desenvolvido desde o início mesmo que de longe, espero mudar este quadro em 2004.

PANFLETÁRIO - Algum projeto sendo concatenado?

ANDERSON RIBEIRO - Sim, em 1989 formei minha primeira banda, a “Paz Armada” fez muitos shows em Contagem e no interior de Minas e comecei aí a escrever e compor poesias e canções. Após o desmanche da banda fiz algumas apresentações solo e participei de festivais. Participei também de outras várias bandas, mas infelizmente não continuei por motivos diversos. Da época ficou um sonho: um CD. Em junho último comecei a gravá-lo, mas tive que interromper. Em 2004 quero retomar o projeto e o de outro livro de poemas mais recentes.

PANFLETÁRIO - Considerando a dificuldade de aferição dos dados, estima-se que a população mundial de usuários de Internet foi de 171.25 milhões em 1998. Destes 97.03 encontram-se nos Estados Unidos e no Canadá. A Europa concentra 40.09 milhões de usuários, a Ásia/Pacífico 26.97 milhões, a América Latina 5.29 milhões e a África 1.14 milhões de usuários. Estima-se também que o número de usuários de Internet na América Latina aumenta 33% anualmente e que os 5.7 milhões de usuários em 1998 passou a 24.3 milhões de usuários em 2003. Se tomarmos o índice da Yahoo, mesmo sabendo ser parcial e incompleto, veremos que o Brasil tinha 3519 de páginas na web em 1998, sendo 663 destas sobre negócios e economia, dados que evidenciam que a web tem suas hierarquias e distribuições desiguais tal qual o mundo real, embora, para alguns, com maior margem de flexibilidade. Hoje, por exemplo, qualquer pessoa pode fazer um blogger sem conhecimentos de linguagem de programação. Você tem uma homepage - www.andersonribeiro.com.br - hospedada na web. Um dos fenômenos da disponibilização virtual de textos é o sumiço da autoria. Quem é seu leitor virtual? Ele limita-se ao "legal", "gostei", "não gostei"? Enfim, a partir das informações acima, comente sua inscrição no universo virtual até o presente momento [dirija-se aos escritores], enfim, comente as observações acima.

ANDERSON RIBEIRO - Minha experiência com a Internet do ponto de vista da interatividade é fantástica. A rede mundial se tornou um canal incrível e sub-aproveitado. Criou-se uma ferramenta sem precedentes, explosiva e extremante mutante. Com relação ao sumiço da autoria de textos, digo que é só uma extensão maximizada do mundo real, havendo também troca de autoria e plágio, é uma pena, mas nada que tire o mérito deste grande e expansível canal de comunicação. Quando escrevi Algozes, foi através da Internet que consegui lançá-lo em São Paulo e vendê-lo para várias partes do Brasil e do mundo. Alguns amigos que conheci virtualmente foram fundamentais para todo o processo, inclusive custeando passagens aéreas, hospedagem, organização e divulgação do evento. Consegui vender praticamente toda a primeira edição, e grande parte desta proeza foi em função de pessoas que só conhecia virtualmente. Minha página está sem atualização há algum tempo, mas até o final de janeiro deve estrear novamente com um novo look. Nela exponho meus poemas e falo um pouco de mim e do processo de criação, além de outros assuntos, links para outras páginas de poesia e um grupo de discussão. É claro que existe o leitor que se limita ao “bacana”, “muito legal”, e não são poucos, mas conheci pessoas dispostas a travar honoráveis batalhas tecladas sobre temas diversos, mas principalmente, no caso da homepage, sobre literatura e sobre Algozes. Existem vários textos meus em outras páginas da Internet, e inclusive participei de uma coletânea de poetas brasileiros cujo livro pode ser comprado pela rede. Uso muito o ICQ, e quem quiser o meu número é o 16555517, ou pelo e-mail anderson@andersonribeiro.com.br. A homepage é www.andersonribeiro.com.br.

PANFLETÁRIO - Qual leitura de mundo e qual leitura literária faz atualmente?

ANDERSON RIBEIRO - “A vida é um desafio que mais forte me faz cantar. Por ela não sei se eu rio, ou mar.” Esta é minha auto-descrição em Algozes, em que assino “Aprendiz”. Aprendiz do mundo e de suas algozes ofertas, ou talvez algozes sejam as nossas escolhas. Leitura de mundo? Considero-o uma inestimável escola, da qual temos faltado a várias aulas. Tenho comprado as “Obras-Primas” nas bancas, devo começar a ler Moby Dick.

PANFLETÁRIO - Qual é a sua?

ANDERSON RIBEIRO - Jim Morrison dizia que vivia como se o instante presente fosse seu último instante. Sem querer fazer apologia a nenhum estilo de vida, digo que tento viver um dia de cada vez, “fazendo o caminho ao caminhar”, aprendendo a escrever o belo com tinta reciclada do lixo materialista humano. Descobrindo, após vencer meus algozes, a visão vertiginosa do totem, que me faz a cada dia, em pálidas noites seculares, feliz, abrir os olhos mais uma vez.

janeiro 30, 2010

Cada macaco no seu galho clonado

            É notório o fato do homem, diferentemente dos outros animais desprovidos de pensamento racional, ser capaz de produzir meios tecnológicos específicos para cada aplicação visando o uso coletivo. O fato é que, na generalização das necessidades, desfaz-se então, o homem, da individualidade inerente e específica de cada ser. O ritmo desenfreado e absoluto dos avanços tecnológicos anula a cada dia as relações interpessoais. O que antes era despretensiosamente humano torna-se, parafraseando Pierre Lévy, um verdadeiro projeto político que admita a cidade contemporânea sendo povoada por máquinas, microorganismos, forças naturais, equipamentos de silício e de cimento, tanto quanto por humanos.
A atualidade é passado distante em pouco tempo. Os desenvolvedores de tecnologia, ávidos por implementá-las logo, dão aos consumidores diferentes respostas iguais, coletivas. Valores outrora tidos como tradicionalmente indispensáveis ao bem estar de uma minoria, ou mesmo do indivíduo, extinguem-se. O Tempo que fluía, segundo Frei Beto, ao ritmo das estações, corre tão surpreendentemente quanto um infarto. Um por todos e todos por todos. É o indivíduo globalizado.
Mesmo sabendo criar, a vida contemporânea se esvai destemperada, sem provas ou degustação prazerosa (por falta de tempo). Cada qual com seu querer igual ao do vizinho mais próximo e também do mais distante; é como se assim fosse. A tecnologia criada ignora seu criador se assim se fizer necessário para a construção de uma nova tecnologia.

Texto acerca das idéias de Pierre Lévy no livro As Tecnologias da inteligência.

De Anderson Ribeiro

Pérolas

A pasárgada do Bandeira
A pedra do Drummond
O cu da Adélia
O ridículo do Pessoa

O anarquismo do Roberto
O caminho do Mário
O efêmero do Vinícius
O canto da Cecília

A construção do Chico
Os olhos
A vontade

A certeza?!
E os poetas de mãos mudas?
Aqueles, perpetuam-nos falantes.


De Anderson Ribeiro

Basicamente Morto


O sono é apressado. Não dá tempo para espreguiçar-se porque, além do choro do herdeiro, já deu hora de vender o dia para pagar a noite. O homem acorda para o trabalho desacordado da própria vida acerca dele: é impossível ler Machado com o cabo do machado na mão. Então, labuta. Lê-se assim a manhã anunciada.
Trabalha. Trabalhar enche barriga, aprendeu. Tantos quanto os anos passados, mais calos. No coração, inclusive. Machado. Novamente o que desbasta na força. Do outro, bastam-lhe seus tantos calos cuidando doer para defenestrá-lo de sua vida. Pena. Tanta.
Acorda, mas, em poucos sentidos. Pobres. Ricos poderiam, ou, haveriam de ser, mas há os calos. Estão lá... O sono é apressado, o choro contínuo. Haveria de acordar, haveria, mas há o machado, e é noite antes e depois do escurecer. É noite. Raiar-lhe o dia cuidaria o machado. Cuidaria. Tantos mais quanto os calos tornar-se-iam.


De Anderson Ribeiro

Carne Poética

Num piscar de olhos
Começa uma nova manhã
E ainda que as pérolas
Tenham as cores do arco-íris
Cá estou
Procurando a que falta para irisar meu dia.

Sempre faço declarações de amor efêmero
Para sempre recomeçar.
Sou o presente
E você... deixa para depois.

Não te peço que vá, senão que fique
Porque eu sou a luz que a sua escuridão não viu,
E é dela que vem o alimento que sustém a leoa
Mas mata os porcos de fome.

Sou as caricias que, à sua frieza,
Cortaram-lhe, qual lârnina afiada
E na altura de seus gritos
Sou o som.
Em decibéis inaudíveis à sua frequência.

Sou o perfume que a sua rinite respirou
Enquanto ouvia a cantiga que a sua infância deixou de cantar.
Você é a arena, e eu, o teatro que a sua ruminância despercebe
Quando, no seu jardim, sou lagarta que fenece na crisálida, sua cria.

Sou também, à crase que o seu soluço engoliu,
O sorriso que a sua covardia chora.
Sou todos os versos que o seu descaso não recitou
E te servindo à prosódia, na silabada em que pronunciaste sua vida,
Sou a aliteração que a sua presença desdiz.

Me cabe a sandice e o despreparo
Porque eu sou metade grávida parindo um novo dia.
É claro que sou a ponte que leva à outra margem
Mas não sou suas pernas.

Sou sim, seu orgasmo sustenido e dissonante que você nâo sabe dedilhar.
Mas... ei, Alice! Hoje quer ser grande ou pequena?
Ah! E, por favor, quantas horas são?

Não vos digo palavras como “insensatez”
Esperando que os porcos possam ser leoas
Porque o alimento se defende num galope
Mas elas atacam e se larnbuzam.

Agora, enfim, se leoa morta
Mesmo do alto de sua majestade
E numa apologia ao excremento do corpo
Torna-se comida
Dos pequenos vermes.


De Anderson Ribeiro
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