Há quem, com seus superpoderes, domine ler pensamentos. Destes, há quem os ouça, inclusive. Nestes, costumo provocar ilusão de áudica. Anderson Ribeiro
Blog Anderson Ribeiro

outubro 05, 2014

Poema Infinito



Poema Infinito

Eis que me encontro labutando finitudes.
Elas, que não acabam, acabam fecundando encontros (e seus desvios).
Em torno das finitudes, adjacentes seus brotos, seus dejetos...
É um caminho.
Penso em olhos azuis, lembro de força, vejo doçura.
São gritos, silêncios, filhos e filhos dos filhos e dos filhos.
Natais, primaveras, canteiros e latas diversas com flores.
Tudo serve, tudo frutifica em qualquer cantinho.
Finitudes são finais de semana, são semanas inteiras, meses.
Não vou falar dos anos, não vou falar.
Talvez do tempo, este sim, pulverizado, subjetivo e anacrônico e sempre atual.
As subjetividades das finitudes são opacas, me lembram o grisalho dos fios e a fumaça do café.
Me lembro das perdas e me lembro dos natais (com a devida licença poética).
É que do alto de minha alma formal, nasci improviso: O que vem pronto, desconstruo.
Coisas que acabam e coisas que não acabam (além das que acabam sem acabar).
As indas e vindas das finitudes transbordam colapsos:
Os cantos ficam sempre mais cheios e o pensamento confuso.
São muitas as finitudes, muitas mesmo, algumas especiais.
Algumas são vertigens, outras infâncias, outonos e outubros...
Mas também são janeiros, muitos janeiros.
Sei que já havia citados os meses, então repito... hoje posso!
É que já hoje chorei, mas agora escrevo,  e sou infinitamente poeta neste momento.
Ontem mesmo sorri, ontem mesmo beijei e ganhei presentes...
Claro, além dos olhos azuis!
Doce de leite, goiaba, ameixa...
Pode lamber a colher de pau, se acabar tem mais!
Amor de fogão à lenha!
Às vezes poder se acabar em finitudes é muito bom,
Porque no tempo delas acontecerem é que somos perenes,
Nos tornamos.
É o tempo de sermos.
É o tempo.
Lembro de amor (para finalizar).
Tim-tim!

Anderson Ribeiro
05/10/2014

julho 13, 2014

Ciclo


Ciclo

Antes de minha morte eu vivi algumas vidas
Antes do outono as tempestades passavam
Quando eu era velho havia cores a criar
E enquanto entardecia elas se ofereciam

Antes da minha vida eu morri algumas vezes
Porque antes das primaveras o sol se calava
Enquanto eu desenhava a minha sombra ele brincava assim
E depois desse esforço eu sussurrei uma nota

Parte do grito é confuso
E metade do resto não conta
Tanto da hora é pecado
Mas a vida que segue termina

Antes de minha morte eu desaprendi a contar
Antes do outono não havia mais
Quando eu for jovem bradarei pinceis
Para quando amanhecer poder sorrir.


Por Anderson Ribeiro

novembro 12, 2013

Bêbado

Bêbado

Sei que eu não sou um bom cantor... mas quem pode com quem está feliz?

Anderson Ribeiro
02-11-2013

outubro 29, 2012

Theometria











Theometria

Certa vez desenhei um triângulo com mil lados
Depois de pronto o chamei quadrado redondo e
Em cada lado escrevi uma história
Depois de escritas as chamei de Cantos e
Em cada canto folheei mil páginas
Depois de lidas as chamei de asas e
Em cada asa voei mil dias e
Em cada dia desenhei um triângulo
De mil lados.

Anderson Ribeiro
29-10-2012

agosto 25, 2012

Sarau

Se canta
Ouvidos
Se dança
Tremidos

Lê-se
Se Dança
Se canta
Talentos

Todos Trovadores
Recitam

Tão trilhadas trocas
Cabem Versos
Solfejos
Jograis
Mais amigos

Antigos Menestreis
Tens Cantigas
Antigas
Perdidas
Reunidas
Queridas
Sofridas

Por Anderson Ribeiro

dezembro 18, 2011

Urbi Et Orbi na Feira da Paz de Contagem

Foto de show da Urbi Et Orbi na Feira da Paz de Contagem, no Eldorado, onde hoje é o Big Shopping. Da esquerda para a direita: João (Voz), Wander (Guitarra base), Betinho (Bateria) e Anderson (Baixo e Voz).

março 13, 2011

Bravo!



... e minha mãe me aconselhou:
- Filho, seja mais manso!

março 03, 2010

Somadêro

Não obstante a pouca ciência acadêmica que trazem consigo, há tipos que transferem aos de bom acabamento do coração alguns tantos e deliciosos momentos de lúdica sapiência. Das coisas simples que sabem, que vivem e que, sem maiores intenções, ensinam, sua experiência em colecionar e cuidar de seus calos é algo de maior valia. Com seus trejeitos e causos de amores e horrores, por mais maltrapilho do côco que se esteja, algum fiapo de sabedoria se há de lumiar na alma, pelo menos.

Deve ser que quem sabe que manga dá em árvores porque já subiu em uma e leite vem da vaca porque já experimentou uma caneca quentinha tenha alguma vantagem sobre quem compra tudo pela Internet, até a vaca. Porque como têm que ver a mimosa para fechar o negócio, dá tempo de ouvir bem o berro, sentir um tanto o cheiro, prosear sobre o mangueiral e, desconfiado, mastigar um capim, que ninguém é de ferro. Quem decide o norte à sombra de verdes folhas o faz normalmente com menor derramamento de bílis e sabe que viver o tempo deste presente firma a batida do coração, cadencia-o e discorre sobre sabores, mesmo sem se dar conta assim, dessa forma.

Sem tempo não há sabor, e sem sabor o tempo se limita a prazos a serem cumpridos, etapa após etapa, sem degustação. Nem a geração Tetra-pac é de ferro, mas não foi avisada, em grande parte, de que há vida além do PS3 e suas víceras de silício, plástico e sabores virtuais. A velocidade imposta em suas teclas denuncia sua temperatura neural que desafia o tempo da compreensão dos porquês: mais valem os bônus e a pontuação. Bom, que vença logo o jogo antes que a ventuinha pare e a fonte queime ou os neurônios derretam. Tanto melhor. 

Por vezes me pego pensando em até que ponto a tecnologia ajuda e a partir de quando ela mumifica. Claro que não chego nunca a nenhuma conclusão, pois são só declarações de motivos os quais nunca se entendem. Entretando, sinto por vezes que a revolução industrial nos tirou o nosso maior bem, o tempo. Do ritmo alucinante e da produção em massa se agregam valores, mas também se perdem, principalmente os valores simples como justamente esse tal tempo. Todavia, é ele que cicatriza os calos doídos, frutos da velocidade urgente e constantemente lenta com a qual se lida com o novo e o imprescindível. 

No somadêro disso tudo, como diria o poeta sem diploma, o coração morre de desgosto. Bateu tanto e tão rápido e não se lembra de nenhum desses "bit's", por tê-los retumbado sem porquês. Melhor é ser como meu avô que, com sua sabedência matuta e velhaca de quem tem as mãos grossas de calos, sentencia: “Dou parabéns às abelhas pelo mel, mas eu tô é correndo do ferrão”. É a voz de quem encherga as coisas com olhos experientes e sábios. Estes fazem o coração punjar forte quando é preciso e emocionante. O velho é assim, gostoso de se chegar e de se ouvir a prosa e as canções das cabaças que carrega rua afora, observador. Uma ocasião, por exemplo, percebeu que uma casa pintada há pouco havia sido pixada logo em seguida, o dono repintou e logo após, nova pixação, e mais uma pintura e outra pixação, e mais outras de cada uma, intercalando-se. Concluiu: “Devem estar disputando quem tem mais tinta!”. 

É isso! A vida é mais simples do que parece. Viva a comadre Borboleta e o compadre Gafanhoto!


Por Anderson Ribeiro

fevereiro 26, 2010

Disciplina


Hei de enlouquecer, sim.
Espero!
Mas, note: conscientemente!
Porque, sê louco, sem saber,
enlouqueceria!

De Anderson Ribeiro

fevereiro 23, 2010

Diapasão

Era ela que de tão poros,
pelejavam-lhe os sentires
Eram eles que de tão puros,
conspiravam-se felizes

Eram atos que de tão santos,
urgiam-se-lhes veleidades
Eram ritmos que de tão altos,
revogavam santidades



Eram ébrios que de tão lúcidos,
confessavam-se eloquentes
Era doce que de tanta sede,
bebiam-se dementes

Eram braços que de tão lúdicos,
folheavam-se sem margens
Era tanto que de tão afoitos,
inverossímeis as vertígens

Era impúdico que de tão louco,
olhavam-se trocistas
Eram verbos que de tão métricos,
alheavam-se calculistas

Eram versos que de tão sórdidos,
conferiam-lhes pedantes
Eram olhos que de tão ingênuos,
proclamavam-nos amantes.

De Anderson Ribeiro

fevereiro 19, 2010

Na Masmorra

Cartas sob paredes sob o sol
Na mesa sob as cartas
A lua eu não vejo
Nem mesmo a luz do sol que me foge
Jogo cartas sobre a mesa
E me jogo também
Inerte sobre a mesa
Ao céu
Sem véu
Sem vida
Na masmorra.

De Anderson Ribeiro

fevereiro 17, 2010

Entrevista Ao Programa Bazar Maravilha

Entrevista concedida ao radialista Tutti Maravilha no seu programa Bazar Maravilha da rádio Inconfidência FM quando do lançamento do livro Algozes.
 
O jornalista e apresentador Tutti Maravilha comanda um dos maiores sucessos da rádio mineira. No ar há mais de 20 anos pela Brasileiríssima FM – e apresentado desde 2005 também pela Inconfidência AM e Ondas Curtas –, o Bazar Maravilha é um programa de variedades muito especial, com personalidade e alegria contagiante. Recebendo os mais expressivos artistas mineiros e brasileiros, o programa também está de portas abertas para os ouvintes, que participam pelo 3298-3442 ou pelo bazarmaravilha@inconfidencia.com.br

Das 14h às 16h, com Tutti Maravilha. 

fevereiro 16, 2010

Gozado

Deu-me então os olhos.
E o sexo lacustre de
Vontade do meu.
Foi translúcida na boca em
Que se desvelou seu corpo,
E fomos um.

De Anderson Ribeiro

Pipocas

O homen cala
E a vida lhe sorri.
Não há mais tempo para as brincadeiras infantis.
À labuta do corpo bastaram-lhe as últimas forças.
Vieram cortejar-lhe os amigos.
O último passeio
Rumo ao último destino.
Carregam-no nos braços os amigos.
Calado, dizendo a cada um em tom bravio.
Palpitando em suas mentes
Uma virginal clareza,
Explodindo em seus sentidos
Como pipoca doce.
Entregando-lhes um sorriso
Em sua última homenagem...
Póstuma.

De Anderson Ribeiro

Poema publicado pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores na "Antologia de Poetas Brasileiros Conteporâneos" número 23.

OS FLASHS DE ANDERSON RIBEIRO *

Por Vinícius Fernandes Cardoso 


Interessante no livro Algozes (1999), do contagense Anderson Ribeiro, é o texto de abertura “Viver, ou viver?”: “Este livro é, na verdade, uma ridícula carta de amor (...)” “É também uma crítica libertária, uma vontade, através da poesia (em todas as suas formas de manifestação) de dizer ‘não’ ao comodismo, ao conformismo, à covardia e à falta de percepção, algum de nossos maiores algozes, enquanto impedem-nos de descobrir e exercer nossas verdadeiras e vitais vontades”.

Existem duas linhas de estudo para a compreensão da obra de Anderson Ribeiro, uma que se atenha ao prólogo referido acima e outra que se atenha aos demais textos de Algozes.

O estudioso que se enveredar pela primeira possibilidade irá se deparar com um texto crítico atravessado por leituras e percepções vivenciais cuja linguagem híbrida, comunicativa porém denunciadamente preocupada com sua estetização, ora embaralha o leitor com seus movimentos retóricos ora joga luz sobre questões de nossa época com grande poder comunicativo.

A revelia do autor, que dividiu o livro em capítulos, sendo, Sonetos, Canções, Quadras, Poemas e um E-mail, verificamos uma poética dística que atravessa todos os textos de Algozes, marca claramente evidente no primeiro texto do livro, In totum:

“Cometer aliterações em teus ouvidos
Fazer a pele arder em teus sentidos
Misturar o som do gozo com os gemidos
Depois fazer silêncio dos ruídos (...)”

O poema se desenrola em dísticos: “Cometer aliterações em teus ouvidos” que se colocam e sobrepõem-se seqüencialmente: “Fazer a pele arder em teus gemidos”. Conversando com a então universitária (hoje pedagoga) Priscilla Cândice Cursino, cuja escrita assemelha-se a de Anderson Ribeiro, utilizamos o termo flash para descrever as linhas textuais dela e as de Algozes. O termo, aqui fundado?, não há dúvidas, exprime melhor a poética de Anderson Ribeiro do que o termo dístico, este, bem empregado por Maria Luíza Ramos no estudo “O ritmo elegíaco” (pg.189 do livro Fenomenologia da obra literária), ao tratar do poema “Sofrimento”, de Henriqueta Lisboa. Diferentemente do poema de Henriqueta Lisboa aonde os dísticos, cada qual com sua unidade e força, estabelecem relação no conjunto do poema, no caso de Anderson Ribeiro, as enunciações aparentemente ligadas pelas estrofes e pelo soneto, em verdade, não apresentam unidade orgânica, a disposição destes lembra uma declaração de motivos. Não veja o leitor aqui depreciação, antes constatação. A abertura dos enunciados com verbos no infinitivo será uma marca recorrente principalmente no capítulo Sonetos. Arrisco entender tal recorrência da seguinte forma. Ao lermos o prólogo “Viver, ou viver?” verificamos que Algozes, mais do que uma obra para o deleite, pretende-se uma obra e intervenção e uma obra de nosso tempo. Daí a escolha do infinitivo, tempo verbal que por excelência exprime o aqui e o agora. Outra interpretação nem tão arriscada no caso de Contagem, repleta de obra vivenciais e personalísticas, poderia enxergar na recorrência de verbos no infinitivo a expressão de um traço de personalidade, um caráter “urgente” no autor de Algozes.

Mas, afinal, o que vem a ser um flash?

Diferentemente do verso aqui definido como “segmento que forma unidade de sentido ou unidade sonora”, aqui definimos como flash segmento realizado formalmente embora que não feche unidade semântica nem sonora, geralmente seqüenciado por outro, e, logo, partícipe de um texto “poético” desprovido de unidade orgânica. Podemos efetivamente construir uma seqüência de enunciados desconexos e não estarmos efetivamente produzindo um poema. Vencendo o imediato julgamento de que seria ruim o texto poético desprovido de unidade, proponho o termo flash para definir estas seqüências fonéticas cuja exposição de expressões subjetivas é mais imperiosa que a costura entre as linhas. Uma leitura pouco detida de Algozes não perceberá as desconexões entre os segmentos, pelo contrário, as falsas junções, salvo as exceções, tenderá a desmentir a idéia de flash. Para evitar a má leitura, auxiliemos o leitor utilizando para o nosso exercício crítico o texto “Aquele que sabe” (pg.34):

01_ Pálida à noite em que te fez bem
02_ Feliz você por abrir os olhos mais uma vez
03_ Para saber o porquê
04_ Das cidades por debaixo das pontes
05_ Alça vôo rumo à criação
06_ Seu vôo milenar
07_ Seu ar
08_ O chão
09_ O mar
10_ Sabedoria ritual
11_ Daquele que sabe
12_ A dor se foi
13_ Ao ver o totem
14_ Na pálida noite secular em que te fez bem
15_ Feliz você por abrir os olhos mais uma vez

Primeiramente vamos apontar os enunciados desligados dos antecessores e, ao fazer os apontamentos, estaremos certos que o leitor irá perceber a pertinência das observações. Aparentemente a linha 14 estabelece relação com a linha 1, e a linha 2 estabelece relação com a linha 15. Mas lendo com sensibilidade estática o leitor irá verificar que se trata unicamente de uma repetição que poderia ser, inclusive, descartada. As repetições, quando solicitadas, possuem as seguintes funções: dar ênfase fonética (unissonância) ou semântica (aliteração). No primeiro caso temos como exemplo a letra de Chico Buarque “Café com pão, café com pão, café com pão” que tem como objetivo sugerir o som de uma locomotiva. No segundo caso, ênfase semântica, temos como exemplo poema de Garcia Lorca no qual o segmento “As cinco horas da tarde” repete-se para enfatizar o horário preciso no qual as tropas da ditadura de Franco (Espanha) saem as ruas para impor a autoridade inconteste. A relação entre as linhas 2, 3 e 4, e entre as linhas 5 e 6 são verdadeiras. Mas a ligação entre as linhas 10 e 11 e entre as linhas 12 e 13 apresenta-se artificial e tediosa. Desejo, no entanto, que o leitor enxergue que não existe um núcleo no qual entorno dele girem os pulsares de Anderson ribeiro. As relações entre as linhas são fracas, vaporosas. O que salta aos olhos em Algozes não é a unidade inteligível do texto, ou a musicalidade, como num Paul Verlaine (poeta francês), mas o pulsar de cada disparo. Daí dizer flash. Cada clarão de Algozes ilumina as “cartas de amor” de Anderson Ribeiro e diz “não ao comodismo, ao conformismo, à covardia e à falta de percepção”.

Anderson Ribeiro nasceu a 15 de fevereiro de 1972, em Divinópolis, e atualmente vive em Contagem.

* Ensaio contido no livro "Leituras e Andanças" (2004), de VFC.


Link Externo: Academia Contagense de Letras (Matéria)

fevereiro 13, 2010

Discurso

Não sei escrever poemas curtos
Mas eu tento.

De Anderson Ribeiro

fevereiro 11, 2010

Bigode branco

Velho senhor, sem nada.
E o nobre doutor,
nada...
Por enquanto.

De Anderson Ribeiro

Poema que conversa com o do colega Zino Mendes, que começou a prosa(?) assim:
Por um fio de bigode.
Velho senado, senhor.
Triste cena,
dor...

Arte de Merda

Pão é poesia? Farinha de trigo, fermento, ovos... tem que ter quem saiba fazer mas, o padeiro é um poeta? Se fosse só misturar tudo e assar seria fácil. Infelizmente (ou felizmente) nem tudo se resolve com um liquidificar e um forno. À homogeneidade e ao calor há de se juntar o tempo, há de se acrescer talento e há de se caber o momento, pois comer sem fome trai o espírito.

E quem come? Tem que ter fome sim, além do gosto. Para se gostar falta experimentar, mas tem que ser com tempo, com calor e com os sentidos latentes. Experimentar é poético. A novidade se estabelece para emocionar, se o gosto é bom. É o prazer da fome, da vontade de comer, do improviso e da efemeridade. Come-se com os ouvidos, alimenta-se pelos poros, lambuza-se através dos olhos. Cheiro bom que revigora e fortalece a alma que habita o corpo.

Arte tem a ver com pulsação, tem a ver com extremos como lágrimas e sorrisos. Tem raízes nos sapos, nos grilos, nos pássaros e na luz do poste. Fascina pela incrível semelhança entre o barulho e o silêncio. Cabem palavras soltas, aforismos e declames daqueles que duram uma viagem interplanetária. Arte é o mecanismo destecnológico para se viajar no tempo e redimensionar o espaço. Provoca aliterações no coração que reverberam inquietude e, autoritária, não pede licença para destruir e construir seus meios.

Artistas têm a ver com inconciência, descontrole, paradoxos e imensurável habilidade subjetiva. Ainda assim, são extremamente capazes de saiajustar matemáticos, pois em suas contas (ou contos, ou quadros, ou quartos, ou...) menos esquádricas são capazes de ofececer múltiplas escolhas corretas para o resultado da soma de dois mais dois. A matemática poética é sinuosa e imperfeita para que nunca esteja pronta de fato.

Mas... pão é poesia? Uma discussão sobre o ser ou não ser das coisas me inspirou o afronte à recorrente questão sobre o que é arte. Além dos brados efemeramente definitivos e das viagens interplanetárias (boas para declames) só me resta o escandaloso silêncio como resposta. Em minha nave sigo imaginando embalagens de pão flutuantes. Elas adentram o recinto causando espanto aos pobres mortais. Como somos tecnocríticos, poderíamos imaginar spielbergianas explicações para tal fenômeno, nada de poesia. Embalagens flutuantes de pão são fáceis de se fazer com truques idiotas hoje em dia. As tais embalagens, entretanto, em lugar de propagandas trazem arte. Delícias envolvem as embalagens. Embalagens flutuantes com poesia calam e espantam. Elas flutuam em direção à mesa aterrissando e propagando um cheiro bom de encantamento. Em meio à pouca luz daquela sala, não obstante a fadiga de para quem aquilo já não arrepia, para os poetas, reféns do perfume que sobressalta seus estômagos, elas se desvelam. Além dos poemas que as recobrem, em seu interior trazem quentinho, pão. Surreal!

Corpo e alma carecem ser alimentados cada qual com os seus nutrientes. "Ars longa, vita brevis". A poesia do pão está em nutrir o corpo que sustém a arte da alma para, pouco depois de cumprir seu papel, virar merda. Espantoso!

De Anderson Ribeiro

fevereiro 10, 2010

Anárquico

Os melhores versos que conheço foram feitos sem régua.

De Anderson Ribeiro

fevereiro 07, 2010

Centro de Cultura Lança livro de Poemas em Contagem

Matéria veiculada em jornal de Contagem quando do lançamento do livro Algozes. (Clique na imagem para vê-la apliada)
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